Trabalhista

CHEGA DE PASSAR PANO PARA O ASSÉDIO

assédio

Anos atrás, procurou-me um empresário para esclarecer uma dúvida sobre um fato acontecido dentro de seu empreendimento.

Uma de suas empregadas estava na parada de ônibus esperando a condução para o trabalho. De repente, aproximou-se um homem e perguntou quando custava um “programa”.

Assustada e com medo, ela saiu correndo da parada de ônibus, tentando fugir daquela situação constrangedora.

Ao chegar ao serviço, apavorada e chorando muito, ela contou aos colegas o que havia acontecido e como aquilo tinha ferido profundamente sua alma.

Tratava-se de um evidente assédio sexual, feito em plena luz do dia e em local público, uma verdadeira agressão para qualquer ser humano.

É claro que essa situação deixou a vítima extremamente abalada emocionalmente.

Vítima de machismo pela segunda vez

No entanto, essa história não acaba por aqui, pois, ao chegar no dia seguinte ao serviço, ela soube que corria à boca pequena que a estavam qualificando, pasmem, de prostituta!

A história por ela contada aos colegas de trabalho foi se espalhando na empresa e a cada “conto se aumentando um conto”, ao ponto de transformar a vítima em uma pessoa mal falada, difamando de maneira rasa e maldosa a imagem e a honra da mulher.

Lamentavelmente, não restou à empregada outro caminho senão pedir demissão para escapar desta situação tão humilhante, cabendo esclarecer, por oportuno, que o empresário somente tomou conhecimento dessa situação tempos depois, razão pela qual me procurou para saber que medidas deveria tomar para que fatos como esses não acontecessem mais, pois neste tipo de situação é muito importante um apoio jurídico.

Assédio X Cultura Machista

Imaginem se isso tivesse ocorrido atualmente, com todas essas mídias sociais?! O que seria da vida desta pessoa?!

Sem dúvida, essa situação é fruto de uma sociedade extremamente machista, alimentada permanentemente por pessoas que não respeitam o próximo.  

O exemplo mais recente foi o comentário do deputado “Mamãe Falei” sobre as ucranianas, que, para ele, seriam “fáceis porque são pobres”, mostrando um dos lados mais abjetos do assédio e do machismo, ao considerar a mulher um mero objeto sexual.

Acima de tudo, trata-se de uma cultura que “autoriza” o homem a assediar uma mulher de forma agressiva e desrespeitosa, como se tal atitude fosse normal, o que acontece em todas as camadas da sociedade.

Além do assédio, essa cultura machista acaba incentivando a violência contra a mulher e até, em situações extremas, e, infelizmente, não tão raras, casos de feminicídio.

Há, ainda, aqueles que se aproveitam dentro de um ambiente de trabalho de posição hierárquica superior para obter vantagem sexual. 

Intolerância contra o assédio

De fato, situações como essas devem ser efetivamente combatidas por todos nós. Chegou o momento de acabar com essa ideia de “tolerância” em relação a atitudes machistas. Todos devem lutar contra o assédio, sem exceção.

Temos de enfrentar a realidade de que somos uma sociedade machista e racista – ainda que de forma velada – e que já é tempo de mudar essa cultura perversa e parar de “passar pano” nesse tipo de situação, como se fosse naturalmente tolerável.

Calar é se colocar a favor do agressor

Conversando sobre esse assunto entre colegas, a advogada Joice Grass alertou que silenciar diante de situações que afetam a moral, a imagem e a intimidade de uma pessoa é se colocar expressamente a favor do agressor.

Se você se cala ou nada faz diante desse tipo de situação, está contribuindo efetivamente pela sua continuidade, da qual poderá também se tornar vítima, o que, espero, jamais aconteça.

Está mais do que na hora de debater, refletir, tomar lado, reagir! 

*Advogado especializado em Direito do Trabalho. Diretor da De Bellis Advogados Associados.

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